Fernanda Narciso, Encenadora.

(artigo originalmente publicado em http://silenceart.wordpress.com/entrevistas/fernanda-narciso/)

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"Sou uma filha da terra nascida há 53 anos e tive uma infância rica em pessoas e factos que é a história de vida das famílias (…). Os acontecimentos da minha infância deram-me, mostraram-me como em todas as crianças, que haviam coisas e pessoas à minha volta com características muito interessantes, umas sabiam contar histórias, outras escreviam e outras só sabiam trabalhar (…) e dessa mistura percebi que havia um mundo fantástico, o mundo da arte, mas eu não tinha muito a noção do que era isso. Um dia tive a audácia de dizer na escola, aos 6 anos, eu quero escrever e pintar, as pessoas que viviam à minha volta deram a capacidade de ver o mundo de forma diferente (…) deram-me a educação pela arte. Comecei pela vida, as minhas tias que trabalhavam no campo, os meus primeiros bonecos de barro, não eram de barro normal, eram de terra batida, amassada com a ajuda da chuva (…) sujava-me na terra (…). Toda a minha vida foi virada para a escrita e a pintura, vou sempre para as coisas pela pintura mas depois dou a volta ou fico lá por outros. Surge com a escrita o teatro e percebi que era o que queria (…) vou para o teatro pela cenografia, e tem sido sempre uma briga do que é visual e do que é escrito. Frequentei algumas escolas, frequentei todas as escolas de Arte que haviam na altura menos as Belas Artes, porque aconteceram algumas coisas importantes na altura, uma delas o 25 de Abril, e nessa altura estava a acabar o liceu e fecharam as portas de todas as escolas e então fiquei com algumas opções de escolas que funcionavam ao lado. Estiive no IADE e fui aluna do José Espiga Pinto, muito importante no desenho, depois no Ar.Co, do Manuel Cabral e do José Mouga que eram artistas na altura que não tinham impedimentos, a escola não impedia de criar, uma coisa que hoje vocês quase que não criam, e nós ali tínhamos a hipótese de criar e assim percebi que era isso que queria. O inicio de qualquer pessoa, o quanto a mais melhor (…) experimentar, experimentar, experimentar coisas (…) procurem, há muitos caminhos, façam experiências, há muitos matérias, façam colagens, risquem (…) façam tudo, experimentem e experimentem-se. Depois pensei eu tenho que comer com isto, lembro-me que na altura as minhas primas e as pessoas lá de casa disseram que queriam ser médicas e eu continuava dizer “Eu quero pintar e fazer teatro” e é isto que quero desenvolver. (…) Apoiaram-me com muitos medos, a minha avó é analfabeta e foi ela que me apoiou mais e isso é de louvar e não é analfabeta, porque tinha sabedoria brutal e foi ela que me ensinou as grandes coisas da vida (…) fazia-me as tintas com as gomas de açúcar (…) arranjava-me papéis e cartões. Esta senhora era minha tia avó, e a irmã tinha uma mercearia e só mais tarde é que entendi a importância da mercearia nos materiais que eu tive.” (…) A Arte não nos paga as contas (…) mas ajuda-nos a dar uma visão diferente da vida. Temos grandes trunfos na manga para suportar muita coisa e isso é importante (…) não falo só da pintura mas da arte em geral. Eu acho que curei uma depressão com música clássica e muita vontade de a ouvir. (…) Tirei na (Escola de Artes) António Arroios a “A Arte dos tecidos” é uma coisa fantástica (…). Hoje é das coisas que mais me tem ajudado nos meus trabalhos que é para que serve os tecidos e os estudos dos padrões quando deixam de ser utilizados. Profissionalmente hoje tenho 3 actividades fixas, mas não exploro ninguém, muito pelo contrário, ganho muito pouco em todas elas, mas preciso das 3 para viver. (…) Uma das actividades é fantástica, trabalhar num atelier de ocupação temporário ou seja num centro de dia com doentes com grandes demências (…).

O trabalho no teatro, sou directora técnica no teatro “Narizes Perfeitos” em Almeirim. (…) Tenho o meu atelier, onde ai desenvolvo duas coisas: a parte das artes plásticas e o teatro.” (…) Antigamente a pintura bastava-me, a moldagem bastava-me e eu hoje preciso das coisas (…). As pessoas de hoje precisam de ver as coisas (…). O meu próximo trabalho chama-se “De Mundos” e é o trabalho que marca de facto o limite do que é a pintura numa dimensão (numa tela) ou instalações, onde vou buscar os objectos da vida quotidiana que preciso para que “aquela” coisa que quero dizer ganhe outra dimensão. (…) Hoje preciso de coisas mais reais, que a felicidade abane. Pintar não é só usar materiais também é ver. Tirei algumas acções de formação no Instituto Superior de Psicologia, acções de formação a nível de arte (…) mudou a maneira de ver as coisas, mudou a maneira simples de ver as coisas, cada vez me apetece simplificar mais as imagens. Podemos ser criativos até à hora da morte”. (…) Gosto sempre de expor pela primeira vez na minha cidade, é uma estreia, vem-me do teatro (…) eu gosto desta terra. Depois surge o expor lá fora, a primeira vez foi em Espanha e vendi. (…) Começo a expor lá fora através de um grupo de amigos ligados ao teatro do Cartaxo que estabeleciam uma ligação com um pintor, que na altura há 20 anos atrás esteve em Santarém, polaco no qual morreu onde então criaram uma fundação na Polónia (…).” (…) Há dois anos ganhei um prémio, mas não é muito importante. (…) Nos apoios, nós fazemos por nós, mas lá fora há maior facilidade, enquanto cá é mais difícil (…) é interessante expor no estrangeiro, porque fica lá sempre qualquer coisa nosso (…).” (…) A minha relação coma a paragem da vida é a morte, ou seja eu não vejo a vida parar para depois reinicia-la; a ligação que eu tenho com a morte e com as coisas que faço em relação à morte é uma relação sempre…não é de paragem. Eu acredito em Deus, logo para mim a morte não existe como o acabar. Se na realidade aquilo que aprendi até aqui na arte e na vida e a vida for só isto, ou seja eu acho um bocado pouco, por outro lado eu tenho dito algumas experiências espirituais a nível de arte, ou seja a música transportamos para determinados campos em que nos dá um sossego grande à alma e ao espírito e ao próprio corpo. Há momentos destes em que eu pensava se eu morresse agora se calhar era fixe, ou por outra se houvesse aqui uma paragem não era mau, mas isto é tudo muito subjectivo. Há momentos de paragem que podiam ser para morrer calmamente e isso daria um descanso, não digo feliz, porque não sei se tenho a plena capacidade de encarar isso como felicidade (…) mas às vezes penso: se acabasse agora seria pelo menos um azul-turquesa salpicado de âmbar e isto leva-nos para a literatura e é ai onde paro para descansar, na escrita. (…) Na escrita estou a trabalhar num livro para crianças uma das coisas mais difíceis que já fiz na minha vida, porque primeiro com as crianças não se brinca e principalmente a nível de arte.”

 “Gostava de poder trabalhar até poder.”

Fernanda Narciso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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